domingo, 2 de maio de 2010

(Des)Encantos


Conheceram-se por ocasião festiva
Num qualquer sarau social
Já se tinham topado à distância
Antes da apresentação formal

Ensaiando olhar perdido e cândido
Dá-se o encontro tangencial
E lá trocam dois dedos de prosa
Aprofundando conversa banal

Dos entrefolhos da sua timidez
Ela saca olhares de mulher fogosa
Ele agiganta-se, enche-se de brios
E responde-lhe à letra, com voz melosa

Ficam seriamente agradados
Enlevados com tal reciprocidade
Que se furtam aos mais propensos à intriga
Feia inveja ou vã maldade

Nunca a lua fora tão bela,
Soltam-se estrelas do firmamento
A noite não pode jamais findar,
Urge eternizar o momento

Ei-los, paixão assolapada,
Que irrompe bruta, sem pré-aviso
Promessa de sorte encontrada,
Que arrebata o corpo e o siso

È um flutuar cor-de-rosa,
Nuvem de coca e mais ópio
Hollywood, napalm de hormonas,
Ilusão, caleidoscópio

Cedo partilham sentires,
Cada momento a sós é tortura
Querem fundir-se um no outro,
Não aguentam a estéril lonjura

Outros encontros se agendam,
Onde confirmam os mútuos encantos
Fazem projectos seguros,
Sobrevivem arrufos e prantos

O tempo passa e mais maduros,
Decidem juntar os trapinhos
Pois só assim faz sentido,
Juntos ficam mais quentinhos

Escolhem recheio, e na aurora da relação,
Tudo flúi fluindo, a alegrete contento
Delícias de ociosidade e d´amor manso,
Salpicam o feliz casamento

Com o lar vem a agridoce adultez,
O mais-que-fazer, a responsabilidade
Mas têm-se ali, é o que importa,
Pena a paixão ir deixando saudade

As arestas outrora engraçadas
E tampouco levadas a mal
Infiltram-se com pezinhos de lã,
Empestando subtis, o casal

Estufam-se os corpos por desleixo,
E cada vez menos se mede a prosa
Apontam-se cada vez mais desgostos
Instalando-se mudez ruidosa

Com pinceladas de verniz é polida,
Às vistas, a já “ralação”
Ele diz que ela é birrenta e chata
Ela lamenta o vazio de atenção

Cansados de mazelas infectas,
Olhos inchados e noites perdidas
Rendem-se à falsa acalmia
Que empola pesares e escarafuncha feridas

Já não chega o desejo, o descarrego
Ou o perdão para repor a felicidade
Nos lençóis pululam guerras, demandas,
Dardos de enfado e má vontade

Por inanição, penduram as armas,
Vivem comodismo, revolta e cansaço
Como dois estranhos seres solitários,
Que por sorte malvada, partilham um espaço

Para onde foram os olhares cúmplices
Onde se perdeu o “Nós”mais-que-certo?
Os abraços, os cheiros, os Verões coloridos
Os dias inteiros de sol descoberto?

A culpa foi dele(a) eu fiz o que pude
Ele(a) mudou e não me deu razão
Brigou sem respeito foi tolo(a) e foi rude
Levou-nos a esta triste condição

Olvidando o muito que outrora se amaram,
Esqueceram também que é possível lutar
Desde que não, assim, um contra o outro,
Se lutarem juntos, por si, par a par

Agora ali estão, cada um em seu canto
Amargos, velhos, sós e desconsolados
Fogem das noites de frio e de pranto
Lambendo memórias, de frutos passados

Não regaram a semente e assim não vingou
Foi levada p´lo tempo que os atropelou
Julgaram-se imunes ao desgaste da vida
E assim foi escoando a seiva mais querida

È triste o que conto, mas não pude fugir
De dizer aos amantes que estão i por vir
Cuidai do calor que partilham a dois
Isto é estória banal, não se queixem depois.



«Amar não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direcção»

Antoine de Saint-Exupéry

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